Páginas

sábado, 15 de maio de 2010

Amores anônimos





Cinco horas da tarde, pequenas frestas de luz entravam pela janela e desenhavam escalas no chão do quarto. Ela levantou da cama, vestiu um roupão de seda azul e caminhou sobre as notas em direção à sala. Puxou o pano branco que cobria o seu piano. Sentou-se e deixou que seus dedos longos traduzissem em música seus sentimentos.

Então tocou Beethoven, um trecho da nona sinfonia. A perfeição musical pra ela. E de olhos fechados, apenas ouvindo os sons que seus dedos extraiam das teclas de marfim, cenas passavam na sua mente. Imagens da sua vida, misturadas às cenas de Isabella Rosseline e Gary Oldman no filme Minha amada imortal.

Do outro lado da cidade, ele voltava pra casa caminhando lentamente. Também sonhando que pudesse existir um amor assim: imortal.

Eles tinham a mesma profissão, o mesmo signo, fumavam a mesma marca de cigarros. Mas sabiam pouco da vida cotidiana um do outro. E ainda assim se amaram.

Talvez por um dia, por um mês, por um ano ou uma década. Mas se amaram. Com toda a totalidade da entrega e com toda a fantasia dos sonhos.
E por não permitir que a mente ou a razão explicasse o que sentiam, entregavam sua alma um ao outro cada vez que se encontravam acordados ou dormindo.

Muitas foram as vezes que chorando ela o amou. E tantas outras que o amando derramou lágrimas.

Algumas madrugadas ele acordou sufocado de saudade. Outras tantas ela sentiu medo e acordou com a voz doce dele, que dizia que a protegeria. E nesses momentos ela não era mais uma mulher , nem ele apenas um homem. Misturavam-se feito anjos caminhando pelas estrelas.

Mas no piso dos asfaltos, seus pés continuavam a caminhar individualmente. Ele mergulhava em seu trabalho, escrevendo sobre as tragédias humanas. Ela coloria seus textos escrevendo sobre as tendências de maquiagens para próxima estação.
Não se viam. Mas suas palavras escritas cruzavam-se em textos mesclados aos olhos dos leitores.

Um comentário:

  1. É a primeira vez que visto seu blog, vi o endereço na comunidade t literária. Parabéns, vc consegue misturar tantos sentimentos em um único texto.

    ResponderExcluir