
Os sapatos de salto foram atirados dos seus pés na entrada da sala. Ela colocou o CD do Deep Purple, acendeu um cigarro e jogou seu corpo no sofá. Lágrimas turvaram seus olhos. Ele iria embora. Ela sentia isso. E não porque não houvesse amor. Mas justamente pelo amor que lhe cortava a carne.
E talvez o mundo a julgasse por deixar o amor ir, mas ela nada podia fazer. Sentia-se frágil, como uma menina assustada no cantinho da sala, escondida atrás dos seus joelhos.
Ela tivera todos os homens que quis, todos os que ela pode manipular e controlar.
Ela nunca o controlou. A primeira vez que ela deixou que ele lhe olhasse nos olhos ele a viu por inteiro. Ele conheceu cada parte do seu corpo sem ao menos tocá-la. E conheceu sua alma mais profundamente do que ela mesma conhecia.
E mais que amor, ele lhe concedeu a liberdade. E por longos anos, misturados ao seu gosto, seus gozos e seus gritos de amor ela teve o caminho embaixo dos seus pés.
Sempre fora dela a escolha de por onde trilhar. Mas ela muitas vezes caminhou em círculos. Outras perdeu-se andando no meio das árvores dos seus jardins secretos.
E ele apenas sorria e dizia a ela que era seu anjo e depois a devorava como um bicho. E mais e mais ela se envolvia. E quanto mais se rendia a esse amor, mas confusos ficavam seus passos no meio do labirinto.
Ela tentava erguer barreiras, o mandava embora, mas bastava uma palavra dele e as barricadas erguidas se dissolviam feito açúcar na chuva. Mas em algum momento antes da lua nascer ele se magoou com ela.
E então ela lhe deu o bem mais sofrido e precioso: a sua liberdade.

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